segunda-feira, 20 de agosto de 2012

7 hábitos das pessoas altamente eficazes

"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta". Albert Einstein
Numa época recente de nossa história (anos 2000 + ou - ), as livrarias em geral foram dominadas por um segmento literário revolucionário, um novo estilo que surgiu para mudar o mundo, transformar as pessoas,  trazer sentido à vida; a cura para os males, sejam eles materiais, espirituais, intelectuais ou emocionais. Sim! Estou falando dos livros de auto ajuda.
Para minha surpresa, após alguma pesquisa, descobri que esse gênero não é tão recente assim. Seu pioneiro foi o britânico Samuel Smiles, que publicou em 1859 a obra “Auto Ajuda”, inaugurando uma nova forma de enxergar os desafios da vida, não mais como antes pela ótica religiosa, mas sim por uma visão antropocêntrica/autossuficiente. Sua mais famosa frase: "O Céu ajuda àqueles que ajudam a si mesmos", indica a substituição da figura de Deus pela palavra Céu (um plágio descarado de uma famosa frase do cientista americano Benjamin Franklin - "Deus ajuda àqueles que a ajudam a si mesmos"). 
A última morre...


Não é necessário muito esforço para lembrarmo-nos de algum título, certamente você já leu ou pelo menos viu a capa de algum... Vários deles possuem nomes que começam por números, como por exemplo “7 hábitos das pessoas altamente eficazes”, “10 indicativos da pessoa feliz”, “12 atitudes do verdadeiro líder”; ou mesmo “O monge e o executivo”,   “A arte da felicidade”. Esses são geralmente de autores americanos, temos também nossos escritores, dos quais Augusto Cury (aquele do “Seja líder de si mesmo”, “Você é insubstituível”, “Nunca desista dos seus sonhos” entre outros grandes sucessos literários) seja talvez o maior expoente.
 

Augusto Cury - 16 Mi de livros vendidos no Brasil e exterior 

 

CRÍTICAS

Não são poucas...Vamos começar pelas do Wikipédia, que denunciam a maquiavelidade de tais obras por apresentarem "respostas fáceis para problemas complicados". De acordo com essa visão, o leitor recebe o equivalente a um placebo, e o autor (junto com a editora) recebe os lucros!!!$$$:
 
"O único modo de se tornar rico com um livro de autoajuda é escrever um"
(Livro “Deus é minha firma”, crítica à ideologia da auto ajuda)
        
Outra grande crítica em relação à auto ajuda é o oferecimento de coisas que podem não ser facilmente atingidas, como riqueza ou saúde, bastando para isso "acreditar em si mesmo", porém o leitor quando não atinge a meta proposta pelos autores, se sente incapaz de realizar seus próprios sonhos.
 

OUTRAS CRÍTICAS

Livros de auto ajuda quando escritos por americanos são ruins e quando escritos por brasileiros são ruins também. Explico; os autores americanos (a maioria pelo menos) vivem nos Estados Unidos, pensam como americanos, comem como americanos, consomem como americanos... Quando escrevem para o resto do mundo, imprimem no papel sua visão americanizada do mundo e não podia ser de outra forma! Uma visão a partir de uma ótica imperialista.  Pensam que os indivíduos do resto do mundo possuem as mesmas oportunidades/facilidades que eles.
Os autores brasileiros não se distanciaram muito dos americanos. Em ambos os casos podemos perceber a promoção do sucesso individual (você pode, você consegue!!!), a desconsideração do contexto histórico de cada um, a pregação implícita da igualdade de oportunidades. 
Sobre a promoção do sucesso individual, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, em seu livro “Desafios brasileiros na era dos gigantes” (p. 17), nos lembra que
 “A maioria da população, vítima das disparidades e dos mecanismos de concentração de poder que as agravam, não são capaz de se mobilizar para promover a reversão desses mecanismos e a consequente redução das disparidades. A desmobilização dessa massa se faz pela difusão de visões da sociedade que a responsabilizam pelas suas misérias; pela distração incessante, promovida pela mídia por meio do culto ao individualismo, à violência anômica, às personalidades dos esportes e do show business; pela exploração do sexo; pelos hábitos introduzidos pela televisão; pela ação de seitas que atribuem a culpa de suas desditas sociais ao individuo pecador que cede ao demônio; e pelo vilipendiar da política e dos políticos, apresentados como corruptos, sem que se indiquem alternativas"...  

PARA NÃO CONCLUIR...

Pessoas que tem o hábito de ler são raras. Todos sabemos os benefícios que a leitura pode trazer a seu praticante (desenvolvimento da imaginação, aumento do vocabulário, maior capacidade de abstração e raciocínio e etc). A pena é que cotidianamente, quando tais raras pessoas abandonam a TV para ler acabam, por uma imposição mercadológica, lendo obras que pouco contribuirão para o entendimento da realidade. Verdade seja dita, os livros de auto ajuda representam um braço forte da mídia hipnótica que no geral objetivam: a naturalização das desigualdades, a perpetuação das injustiças, a culpabilidade do indivíduo pela sua condição, a desorganização dos movimentos sociais coletivos, enfim, a despolitização da sociedade.
 

Referências

Guimarães. Samuel P. Desafios brasileiros na era dos gigantes. Rio de Janeiro. Editora Contraponto, 2005.




sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Da manipulação das informações cotidianas / Manipulação da grande Mídia

Entender a manipulação dos fatos pela imprensa é a chave para perceber o quanto da nossa realidade é distorcida/ocultada por esse segmento. A princípio pode até parecer papo de “conspirador” ou de gente paranoica, mas com um pouco de reflexão e atenção é possível identificar a função de espelho deformado que a mídia exerce em relação aos fatos, perpetuando os interesses de uma pequena classe social (a elite) em detrimento da maioria desvalida.
Duas premissas básicas são necessárias ao entendimento desse sistema. I. No sistema capitalista, onde tudo tende a virar mercadoria, a notícia não escapou a esse processo, tornando-se também uma fonte de lucro. II. Não existe neutralidade na difusão de informações, todo órgão da imprensa (seja ele televisivo, impresso ou rádio) possui uma orientação político/ideológica, transmitindo os fatos de acordo com o seu “filtro”.




Na obra intitulada “Os padrões de manipulação da grande imprensa”, o jornalista Perseu Abramo aponta algumas práticas que às vezes em conjunto, às vezes separadas, compõem o arsenal midiático. São elas:

 
1 – Padrão de ocultação – Ausência e presença dos fatos reais. Silêncio deliberado em determinados fatos da realidade. “A ocultação do real está intimamente ligada àquilo que (...) se chama “fato jornalístico”. Ou seja, na pauta existem fatos e não fatos jornalísticos. Uma concepção seletiva dos fatos.

2 – Padrão de fragmentação – “O todo real é estilhaçado (...) fragmentado em milhões de minúsculos fatos particulares (...), desconectados entre si (...) sem vínculos com o geral...”. O fato, portanto fica fora do contexto.


3 – Padrão da inversão – Descontextualizados os fatos, opera-se a inversão,com o reordenamento das partes e a troca de lugares com a destruição da realidade original e a criação artificial da outra realidade”.
Na inversão da relevância dos aspectos, o secundário é tratado como principal e vice-versa.
Na inversão da forma pelo conteúdo, o fato é menos importante que o texto. E na inversão da versão pelo fato, o fato tem importância, mas de acordo com a versão do órgão que o divulga.  No lugar do fato, apresenta declarações suas ou alheias, com versões de opiniões nebulosas. Significa que, se o fato não corresponde à versão de quem o divulga, o fato deve estar errado (sic).
A inversão do fato se dá, também, por meio do oficialismo, no sentido de indicar a fonte oficial, que pode ser uma autoridade do Estado ou do governo, ou de qualquer segmento da sociedade.
inversão da opinião pela informação substitui a informação pela opinião. A informação serve, portanto, apenas para ilustrar a opinião que se quer impor à sociedade.

4 – Padrão de indução – O leitor/espectador é induzido a ver o mundo não como ele é, mas sim como querem que ele o veja.

5 – Padrão global ou padrão específico do jornalismo de televisão e rádio – Segundo Perseu Abramo, divide-se em três momentos básicos, como espetáculo, jogo de cena em que o 1o Ato é o da exposição do fato. Fato esse apresentado de forma sensacionalista, menos racional, com imagens e sons. No 2o Ato é o momento em que a sociedade fala. Com pessoas dando seus testemunhos, expondo alegrias e dores, críticas, queixas e propostas. O 3o Ato é o da autoridade que resolve. Reprime o mal e enaltece o bem. Tudo será resolvido. É o papel alienante da autoridade.
Temos então uma realidade substituída por outra realidade, artificial, irreal. Nesse espaço o cidadão se move, sem agir, de preferência!  

“Porque o jornalismo manipula a informação e distorce a realidade?”, pergunta Abramo, acrescentado que é deliberada, tem um significado e um propósito.Em seguida fala sobre interesses econômicos (ambição de lucro) e a lógica do poder. “Para exercer o poder e recriar a realidade, precisam manipular a informação, tornando-se, portanto uma necessitade”, que a leva a se transformar em um partido político.
Recriando a realidade à sua maneira e de acordo com os seus interesses político-partidários, os órgãos de comunicação aprisionam os seus leitores nesse círculo de ferro da realidade irreal, e sobre ele exercem todo o seu poder. O Jornal Nacional faz plim-plim e milhões de brasileiros salivam no ato. A Folha de S. Paulo, o Jornal do Brasil, a Veja dizem alguma coisa e centenas de milhares de brasileiros abanam o rabo em sinal de assentimento e obediência.
        
Perseu Abramo, tivesse vivido os avanços da internet, dos blogs e das redes sociais, constataria o quanto a grande imprensa perdeu em credibilidade. As manipulações veículadas na grande imprensa são desmascaradas por jornalistas éticos em suas páginas na internet.                      

* Perseu Abramo foi jornalista e sociólogo. Trabalhou no Jornal de São Paulo, na Folha Socialista, A Hora, em O Estado de S. Paulo (Estadão), na Folha de S. Paulo, entre outros, além da Rádio Eldorado e TV Globo. Faleceu em São Paulo, em 6 de março de 1996, aos 66 anos.