sábado, 27 de abril de 2013

O CAMPO E A CIDADE, A MULHER, O HOMEM E O CONSERVADORISMO. UMA HISTÓRIA

A literatura, se vista por um olhar atento, possui o papel de construir sólidas ideias. O Blog do Danicio é um espaço que procura valorizar esse conhecimento, e sempre que possível, abrirá espaço para tal. Abaixo,  segue o primeiro texto de Paulo Victor, um de nossos colaboradores. Boa leitura.


Um trabalhador rural, casado, de 35 anos, de nome Tião, decide ir trabalhar na cidade em busca de melhores condições de vida, trabalhar de sol a sol no campo já não era mais sua única opção, a cidade crescia, as estradas estavam melhorando, o comércio e a indústria estavam contratando, entre seus amigos muitos já estavam trabalhando na cidade, e disseram a ele que só o fato de trabalharem na sombra já os agradava demais.
Já depois de alguns meses trabalhando numa indústria, ele começa a passar num barzinho um pouco depois do expediente, para beber com os amigos, lá ele vê uma mulher na mesa ao lado, fumando, bebendo e com o cabelo colorido, ele logo pensa: “essa é mais uma vadia”, mas, pouco depois chega outro de seus amigos da fábrica, e lhe apresenta a moça da mesa ao lado, era sua irmã, Tião se surpreende e reflete consigo mesmo: “mas essa é a irmã de meu colega, foi ela quem o criou após a morte de sua mãe, foi ela quem o educou mesmo com tantas dificuldades pelas quais eles passaram”. Tião começa então a transformar sua visão sobre a mulher e tudo o que ele vê nela, suas roupas, suas atitudes, seu comportamento e seu caráter.


Campo e a cidade segundo crianças da escola Padre José de Minas Gerais. Fonte: http://escola-padre-jose.blogspot.com.br/2010_04_13_archive.html

Uma de suas melhores amigas de trabalho também o auxiliou, ela tinha no corpo o que ele chamava de “figuras”, mas ela explicou que era uma tatuagem, e que era uma homenagem ao próprio filho dela, essa experiência ajudou-o então a deixar de ver todas as mulheres tatuadas como vulgares, bandidas ou ex-presidiárias.
E o aprendizado não parou por ai, ele percebeu que a mulher não estava mais só presa ao trabalhado doméstico, afinal, havia mulheres trabalhando lado a lado com ele. E com isso a divisão sexual do trabalho foi de forma ‘natural’ tornando-se uma memória perdida na cabeça de Tião.
Enquanto ele andava pela cidade foi conhecendo diversas religiões, pois ele via igrejas, nomes, e buscava se informar sobre aquilo, observou então os diferentes papéis das mulheres nas diferentes religiões, viu como elas se vestiam, como se comportavam, etc.


Fonte: http://escola-padre-jose.blogspot.com.br/2010_04_13_archive.html
Quando Tião procurou diversão na cidade, ele encontrou um local para dançar, logo de início estranhou a ‘ousadia’ das mulheres dançando, seu conservadorismo pensou por ele: “São mulheres da vida”? Mas note-se que foi como pergunta e não como afirmação, sua forma de pensar estava mesmo mudando, para confirmar ele conversou com uma das moças que estavam dançando, percebeu que a forma como ela dançava não refletia nada sobre seu caráter ou sua profissão, ela estava ali para se divertir, e dançava de uma forma que, para alguém que só tinha experiências com danças de festa junina, realmente iria “estranhar”.
E isso tudo fez parte de grandes mudanças da vida da mulher no campo, se não no campo como um todo, pelo menos dentro da casa de Tião, sua relação com sua esposa Margarida também começou a mudar, ela inclusive adentrou um curso noturno e voltou a estudar (a cidade oferecia cursos, chances de se melhorar de condições, chances essas que Margarida não encontrava na roça, e que Tião percebeu que agora poderia oferecer a sua mulher). Com isso tudo Margarida foi percebendo que ela não precisava mais reprimir muitas de suas vontades e ou opiniões, eles (o casal) foram então avançando em muitos pontos, chegaram inclusive a entender os motivos do divórcio de uma conhecida deles, não pensaram mais somente pela cabeça conservadora pautada no homem, que uma mulher se divorcia de seu marido porque quer mais homens, ou por não ser uma boa companheira ou boa mãe.
Isso tudo serve, mesmo que de modo inicial, para mostrar que a aproximação pode quebrar preconceitos (pré-conceitos), que o distanciamento fomenta ideias infundadas, que estereótipos são constantemente criados sobre falsas impressões, evidenciando que a falta de contato só reforça diferenças, e diferenças essas que muitas vezes não precisam nem existir, ou nem existem mesmo.
Por fim, esperamos que nossa história ajude a entender, que histórias são só histórias, OU NÃO! E que tudo num texto está explicito, OU NÃO!

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Meu amigo dengoso e a Indústria farmacêutica

"Dengue não tem Vacina. A vacina é a sua ação."
                                                    Governo do estado de São Paulo

Tenho um amigo que infelizmente pegou dengue. 
Bom, quando alguém tem gripe, dizemos que a pessoa está gripada. Quando tem resfriado, dizemos, que ela está resfriada. No caso da dengue, dizer que a pessoa está "dengosa" além de ser uma tentativa de neologismo, não deixa de ter um conteúdo sádico; nesse caso, perde-se o amigo mas não a piada... 
Como todos deveríamos saber, a dengue é transmitida por um mosquito, o Aedes Aegypti. Sua proliferação se dá em água parada. De tudo isso, o que mais me chama a atenção é que a doença é conhecida desde o século XVII, com o ocorrências em diversos países, porém até hoje, não há tratamento específico para sua cura.
Uma questão. Porque uma doença que acomete milhares de pessoas no mundo inteiro, conhecida a mais de três séculos, que pode inclusive matar sua vítima (caso da dengue hemorrágica) ainda não possui remédios exclusivos? Uma resposta possível, talvez esteja no fato da dengue ser uma doença de países pobres (subdesenvolvidos, em desenvolvimento, como quiser), uma questão básica de sanitarismo, e por conseguinte atingir principalmente uma população pobre.

A indústria farmacêutica


A indústria farmacêutica não está fora da lógica capitalista. Como qualquer outro ramo do mercado, sua produção está voltada ao consumo. Uma vez que determinado público não pode pagar por seus produtos, sinto muito, ficará sem o remédio. O que é mais preocupante é que para algumas doenças não existe nenhum tratamento, como é caso da dengue, ou mesmo da esquistossomose, a doença do caramujo, que embora conhecida a muitas décadas e acometer mais de 200 mi de pessoas no mundo (segundo a OMS, órgão da ONU para a saúde), só recentemente conheceu um tratamento especifico com o praziquantel. O contrário pode ser constatado quando falamos de outras enfermidades como, por exemplo: doenças cardíacas (comum nos estratos médios e altos da sociedade), que possuem um grande número remédios, de variados laboratórios.

A lógica farmacêutica é a lógica do lucro. Os altos investimentos requeridos para a elaboração sintética  de remédios (pesquisas) são repassados para o consumidor.  Algumas doenças, por serem mais lucrativas, recebem atenção especial.



Sobre a quebra de patentes


A patente é um mecanismo legal que garante ao pesquisador o monopólio de mercado (exclusividade no comércio) de determinado produto ou tecnologia desenvolvido. Ocorre que alguns remédios são de extrema importância para a população, e seu preço inviabiliza o tratamento dos doentes. Um exemplo, é o caso do "coquetel", usado no combate a aids.

No Brasil, a quebra de patentes não é uma novidade. Os remédios genéricos são resultado dessa política. Se por um lado, temos o acesso e a popularização de drogas antes caríssimas ao cidadão, por outro temos a pressão por parte dos grandes laboratórios, que prejudicados por tais políticas, deixam de  investir no país.

Vale lembrar que a quebra de patentes foi praticada e é defendida principalmente pelo Brasil, Índia e África do Sul; países do BRIC, que embora possuam economias de vultosas, apresentam também muitos contrastes sociais.   

quinta-feira, 11 de abril de 2013

SOBRE A ERUDIÇÃO E OS ERUDITOS - Arthur Schopenhauer


Abaixo, segue texto de Schopenhauer sobre a educação. Espera-se que seja uma introdução a um conjunto de análises sobre o assunto que virão posteriormente. Boa leitura!


Quando observamos a quantidade e a variedade de estabelecimentos de ensino e aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância à instrução e à verdade. Entretanto, nesse caso, a aparências também enganam. Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes. 



Schopenhauer (1788-1860) - Filósofo alemão aos 27.
Fonte: Supplementi al «Mondo»
Laterza, Bari 1986


A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração, pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração frequenta a universidade e se aferra aos livros, sempre aos mais recentes, os de sua época e próprios para sua idade. Só o que é breve é novo! Assim como é nova a geração, que logo passa a emitir seus juízos. 



SCHOPENHAUER, Arthur.  A ARTE DE ESCREVER. Lp&M pocket. Porto Alegre, 2005.